Sem drama e com apoio, é possível livrar-se deste vício tão prejudicial à saúde
Por Lucia Freitas
Considerado a principal causa de morte evitável no mundo, o tabagismo afeta cerca de 1 bilhão e 300 milhões de pessoas em todo o mundo. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) o vício é responsável por quase cinco milhões de mortes por ano – são dez mil pessoas morrendo todo dia.
O resultado deste quadro de catástrofe é o terrorismo oficial em torno do hábito de fumar. Além da proibição do fumo em locais públicos, escritórios, restrições na venda e publicidade, imagens aterrorizantes nos maços fazem parte de uma campanha maciça pela conscientização sobre os males do tabagismo. “A idéia é fazer as pessoas pararem para pensar. Mudar um comportamento de mais de vinte anos demanda muito mais trabalho que isso”, explica o pneumologista Sérgio Ricardo dos Santos, coordenador do Prev-Fumo, da Universidade Federal de São Paulo.
Um pouco de história
O uso do tabaco para efeitos medicinais já era conhecido na Antigüidade. No século XVII, o médico e filósofo alemão Jean Neander publicou “Tabacologia”, um robusto tratado que sistematizava os vários poderes do tabaco, entre eles: reduzir a fome e a sede, fortificar a memória, tratar doenças como a úlcera, pneumonia, gota, angina, asma, tosse, além de servir como proteção contra a peste. Hoje se sabe também que a nicotina acaba com depressões leves e ansiedade.
Por outro lado, alguns médicos chegaram a demonstrar os perigos do tabaco, mas foi apenas na segunda metade do século XX que agências governamentais e instituições de saúde passaram a divulgar intensamente a íntima relação entre o consumo de tabaco, as doenças e a morte.
O bem-estar proporcionado pela substância faz com que o ato de fumar se torne repetitivo e, em pouco tempo, leva o fumante ao vício, apesar dos riscos do tabagismo à saúde serem conhecidos por todos.
O Prev-Fumo foi o primeiro centro de tratamento criado no Brasil, em 1990. Formado por uma equipe multidisciplinar – são pneumologistas, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, educadores físicos – orienta os pacientes, gratuitamente, durante o processo de parar de fumar que leva dois meses.
Perfil dos fumantes
A amostra do Dr. Sérgio Ricardo dos Santos é grande. São cinco mil pessoas por ano – 60% mulheres, em busca de ajuda para parar de fumar. Claro que não aparecem por lá aqueles que venceram o desafio sozinhos – ou em outros consultórios. Como em outras áreas da medicina, os homens costumam retardar a busca de tratamento. Além disso, a mulher tende a desenvolver mais depressão quando para de fumar.
Há vários perfis de fumantes – e eles podem aparecer simultaneamente na mesma pessoa:
1. Fuma por prazer;
2. Fuma para aliviar ansiedade, tensões, depressão;
3. Fuma para manter o grupo social;
4. Fuma para se sentir estimulado;
5. Fuma para reduzir o estresse.
O risco de cada um desenvolver doenças depende da dose – como em todas as outras doenças – e de questões genéticas e ambientais. Ao livrar-se do vício, a pessoa fica com hálito, cheiro, pele e aspecto melhores. Para os homens, diminui, sensivelmente, o risco de impotência.
Tratamento possível – e gratuito
Segundo o Dr. Sérgio, parar de fumar requer atitude acolhedora e orientação. “Trata-se de uma questão nova na medicina. Para se ter uma idéia, ainda não ensinamos nas Faculdades como tratar o vício de cigarro”, conta. Para completar, há muitos profissionais de saúde que não estão preparados para lidar com o tema.
“O tabagismo exige tratamento multifatorial. É preciso saber nutrição, indicar atividades físicas para aliviar a ansiedade, ser um pouco enfermeiro para acolher e um bom médico para indicar o medicamento certo e combater a dependência”, explica o especialista.
A propaganda, as revistas e até os sites contam: é possível parar de fumar. E o medo na cabeça do fumante é: como parar sem sofrer? Em primeiro lugar, procure seu clínico de confiança e converse. Se ele souber dar a orientação necessária, ótimo. Caso contrário peça-lhe uma indicação ou um serviço como o Prev-Fumo.
Lá existe tecnologia para ajudar fumantes arrependidos. Você telefona, marca a entrevista. “Este encontro já é uma intervenção, é uma entrevista motivacional, que mostra os benefícios de parar de fumar”, diz o Dr. Sérgio Ricardo. Nele, é feito um histórico, avaliação de saúde, quais remédios o paciente toma. Depois disso, formam-se grupos de até doze pessoas. O grupo se encontra semanalmente no primeiro mês e quinzenalmente no segundo. Estes oito encontros servem para todos enfrentarem o seu problema em comum – o tabagismo – e conseguir driblar as dificuldades. A cada encontro, é feito o acompanhamento dos remédios (que são comprados pelos pacientes), compartilham-se as dificuldades, criam-se estratégias e metas. Depois de terminar o ciclo de dois meses, os participantes podem se encontrar uma vez por mês, por até um ano.
“O tratamento em grupo é muito interessante e eficiente. Focamos na pessoa, treinamos suas habilidades, fazemos a indicação de medicamento, quando necessário”, diz Dr. Sérgio Ricardo. O principal obstáculo a ser vencido é a síndrome de abstinência. “Não é moleza parar de fumar: exige desejo, dedicação e persistência. E pode ser sem sofrimento, um prazer”, continua. Segundo o médico, o interessante da abordagem em grupo é que todos aprendem juntos a vencer. O que ele vê, ao final, é um grupo de amigos, gente contente, potente, que fica feliz da vida.
Serviço:
Prev-Fumo: 11-5579-3412.
Ambulatório de Cessação de Tabagismo do Hospital Universitário de Brasília (HUB). O atendimento acontece de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h, no térreo da unidade 2 do HUB, no setor de Espirometria. É preciso se inscrever antes pelo telefone (61) 3448 5280.
Disq Saúde – 0800-61-1997
Fonte: Atmosfera Feminina


